Compartilhe esta notícia
Crítica: A Casa do Dragão se enrola novamente, mesmo entregando momentos marcantes
Crítica: A Casa do Dragão se enrola novamente, mesmo entregando momentos marcantes

A terceira temporada de A Casa do Dragão entrega momentos de inegável grandeza visual e narrativa, mas não consegue se livrar da incômoda sensação de estagnação que tinha em sua 2ª temporada. O início desse terceiro ano da série comandada por Ryan Condal até empolga com sequências brutais e a introdução de ótimos personagens, como o carismático Ormund Hightower, além de uma atuação monumental de Emma D’Arcy como Rhaenyra Targaryen e de Tom Glynn-Carney, como Aegon II.  

Ormund Hightower (Reprodução:Internet)

Contudo, à medida que os episódios avançavam, ficava evidente que os roteiristas continuam esticando uma história que não tem fôlego para preencher 4, ou talvez 5, temporadas. Além da falta de conteúdo para tantos minutos, algumas partes dos livros são deixadas de lado, como a Batalha do Vinhomel, na qual o exército Hightower triunfa sobre as casas da Campina e Daeron ganha seu reconhecimento, ao contrário do que acontece na série.

O grande trunfo deste 3º ano reside na complexidade moral atribuída aos seus personagens principais. Rhaenyra abandona a postura passiva e abraça um autoritarismo perigoso, cruzando linhas éticas que a aproximam de uma tirana, o que ela sempre buscava fugir. Do outro lado, Aegon II, interpretado brilhantemente por Tom Glynn-Carney, como já falado, ganha camadas profundas ao renascer das cinzas de sua própria humilhação física e emocional. 

A Batalha de Tumbleton, um dos momentos mais aguardados pelos fãs dos livros, surge como o ápice visual e dramático do conflito, demonstrando que a guerra civil dos Targaryen é uma máquina de destruição sem vencedores. A sequência, com excelentes momentos de batalha, deixa claro que o fogo dos dragões não traz glória, apenas morte e ruína para os personagens e principalmente o povo comum, que é o que mais perde com a guerra. É o espetáculo técnico que a temporada preparou, mas que reforça o horror e a falta de reconciliação em Westeros. 

Em contrapartida, é frustrante observar como arcos cruciais foram negligenciados ou reduzidos ao ridículo. Personagens de peso, como Aemond Targaryen, passam episódios inteiros isolados em Harrenhal em tramas arrastadas e sem propósito. O próprio Daemon Targaryen, interpretado de maneira magistral por Matt Smith, apesar de vislumbrar momentos de humanidade, acaba preso ao mesmo ciclo repetitivo de violência e ambição que já desgastou sua figura no passado.   

Daemon Targaryen na Batalha de Tumbleton (Reprodução: Internet)

Essa flutuação drástica de ritmo faz com que figuras secundárias pareçam meros figurantes fazendo hora extra na narrativa. Criston Cole perambula sem profundidade pelas Terras Fluviais discursando frases vazias, enquanto arcos como os de Mysaria e Helaena perdem qualquer relevância dramática. A falta de foco na escrita transforma reviravoltas que deveriam ser chocantes em acontecimentos desconectados e apressados, como a própria morte do Mão de Aegon II.

Morte de Helaena targaryen (Reprodução:Internet)

O desequilíbrio reflete diretamente nas escolhas narrativas do encerramento da temporada, que dividiram duramente o público. A morte brutal de Ormund e a trágica execução de Helaena tentam chocar, mas revelam uma dependência excessiva de ganchos episódicos. Para muitos espectadores, a obra flerta com o apelativo ao sacrificar o desenvolvimento dos personagens em prol do avanço acelerado na guerra.

Mesmo com essas falhas estruturais, negar o valor técnico e atuações de destaque seria injusto. O elenco principal sustenta o peso de um roteiro oscilante com maestria, garantindo que os momentos de pico da temporada funcionem com brilhantismo. No entanto, o gosto amargo que permanece é o de uma produção que precisa de muito mais do que espetáculo visual para se manter relevante. 

O saldo final desta temporada é o de uma obra que flerta constantemente com a genialidade, mas é sabotada pelo medo de avançar o próprio tabuleiro de narrativas. A exaustão gerada pela repetição de fórmulas ao longo dos episódios é um sinal claro de que a trama chegou ao seu ponto de exaustão. Resta saber se a quarta temporada aprenderá com esses erros para entregar o desfecho definitivo que Westeros merece.  

A nítida desaceleração da história confirma que o caminho até o fim da Dança dos Dragões exige coragem para encerrar o ciclo. Ao focar na desconstrução moral da família Targaryen, a série ainda preserva seu potencial dramático. Contudo, o último (ou penúltimo) ano precisará ir direto ao ponto, evitando que a hesitação dos roteiristas comprometa o encerramento da série. 

O Autor

Rafael Monteiro

Jornalista da equipe FofoNews.

Comentários (2)

Deixe sua opinião

Seu e-mail não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *