A tentativa de extrema-direita de reivindicar O Senhor dos Anéis como um bastião do tradicionalismo e do nacionalismo revela uma leitura deliberadamente superficial. De reuniões neofascistas nos “Acampamentos Hobbit” na Itália dos anos 1970 a discursos de Giorgia Meloni e alinhamentos ao trumpismo e ao bolsonarismo no Brasil, setores reacionários insistem em enxergar a obra de J.R.R Tolkien como um louvor à preservação de hierarquias rígidas de sangue e ao isolamento cultural.
Contudo, uma análise progressista e materialista da obra, reforçada e amplificada pela emblemática trilogia cinematográfica dirigida por Peter Jackson nos anos 2000, demonstra fundamentalmente o oposto desse discurso exclusionista.
O projeto autoritário de dominação totalitária representado por Mordor só é combatido e derrotado quando a diversidade, a solidariedade de classe e a cooperação entre povos se sobrepõem ao isolamento e à obsessão pelo poder absoluto.
Essa leitura equivocada ganha contornos evidentes no cenário político brasileiro contemporâneo, no qual figuras da extrema-direita tentam se apropriar de símbolos do heroísmo épico e da “tradição moral” para legitimar o autoritarismo e a rejeição ao diferente.
Assim como os arautos do trumpismo nos Estados Unidos, a política do medo e do viés elitista no Brasil busca construir divisões artificiais entre “cidadãos de bem” e o restante da sociedade, distorcendo narrativas culturais para justificar dinâmicas de exclusão social e concentração de poder.
Longe de legitimar a opressão ou o triunfo autocrático dos “poderosos”, o coração e a espinha dorsal da narrativa residem na desconstrução sistemática do heroísmo aristocrático tradicional. Os verdadeiros protagonistas do salvamento do mundo não são os reis, nobres guerreiros ou grandes magos dotados de poderes divinos, mas sim os Hobbits, figuras intencionalmente associadas à simplicidade agrária, ao convívio comunitário e à ausência de ambições imperialistas ou de acúmulo mercantil.
Sob a ótica da crítica literária materialista e marxista, o Um Anel funciona como a corporificação mitológica definitiva do Capital e do fetiche da mercadoria. O objeto não possui o valor de uso real para o bem-estar social ou para o cultivo humano, sua única e exclusiva função é a expansão, a acumulação e o controle irrestrito sobre os outros corpos e territórios. O anel corrompe a subjetividade de quem o toca, alienando o indivíduo de sua própria humanidade, como exemplificado na trágica degradação de Gollum.

O Um Anel (Reprodução:Internet)
A ruína de Mordor não emana da imposição de um líder supremo oposto, mas sim da ação coletiva, descentralizada e sacrificial daqueles que foram historicamente marginalizados. As estruturas de dominação de Sauron e Saruman operam sob a lógica da força de trabalho proletarizada e descartável dos Orcs e Uruk-hai, fabricados em linha de montagem industrial para servir como engrenagens de um complexo militar-industrial predatório.

Sauron (Reprodução:Internet)
A aliança multifacetada que salva a Terra-Média contrapõe de forma direta o discurso xenófobo e racista que grupos ultraconservadores tentam infundir na cultura pop. O Conselho de Elrond expõe que as desconfianças, os preconceitos e o isolamento entre Elfos, Anões, Homens e Hobbits eram, na verdade, os maiores facilitadores da expansão imperialista de Mordor.
A célebre declaração de compromisso firmada em prol de Frodo Bolseiro: “Se com a minha vida ou a minha morte eu puder protegê-lo, eu o farei. Você tem minha espada… e a minha flecha… e o meu machado”, sintetiza o dever ético da solidariedade internacionalista.
Essa união entre diferentes povos e raças demonstra que a resistência contra a barbárie exige a abdicação do egocentrismo nacional e a construção de frentes amplas em defesa da vida.
Em discursos políticos marcados pela defesa do autoritarismo e de linhagens que estão a muito tempo no “poder”, como na família de Flávio Bolsonaro e seus aliados visando às eleições de 2026, se nota uma tentativa de simular uma liderança “providencial” ou messiânica.
No entanto, ao discursar aos seus soldados nos Portões Pretos em O Retorno do Rei, Aragorn não apela ao purismo étnico ou ao resgate de privilégios de classe, mas apela à preservação dos laços fraternos e da liberdade coletiva: “Um dia virá em que a coragem dos Homens vai falhar, em que abandonaremos nossos amigos e quebraremos os laços de fraternidade. Mas esse dia não é hoje!”.
A fascinação reacionária pelo universo de Tolkien se baseia no fetiche equivocado por uma estética medievalista idílica, ignorando que o diagnóstico social do autor dialoga com as mazelas do capitalismo industrial e da devastação ambiental.
A transformação de Isengard por Saruman, focado na produção em massa, na poluição desenfreada e no desmatamento sistemático da floresta de Fangorn, exemplifica a crise ecológica e o extrativismo predatório denunciados pelos movimentos sociais e pela esquerda ao longo das décadas.

Isengard (Reprodução:Internet)
A resposta da própria natureza e do povo comum, representada pela marcha catártica dos Ents e pela insurreição popular no Expurgo do Condado, reforça uma mensagem profundamente antiautoritária e ecológica.
A destruição das fábricas e chaminés poluentes que contaminaram o Condado simboliza a recuperação da dignidade comunitária e do território frente à exploração mercantil imposta por agentes externos de poder, uma metáfora precisa para as lutas contemporâneas contra a degradação ambiental promovida pela extrema-direita no Brasil e no mundo.
Reclamar o gênero fantástico como um espaço de celebração da diversidade, do ambientalismo e da justiça social não representa uma distorção do legado de Tolkien, mas sim a leitura consciente de uma obra cuja mensagem central recusa a tirania.
Ao contrário do que prega a extrema-direita e os discursos populistas autoritários que tentam capturar o imaginário político para as disputas de 2026 no Brasil, o triunfo na Terra-Média nunca pertenceu aos autocratas, mas sim à união inegociável entre os diferentes em defesa do bem comum.



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